Entrevista - Cássia Almeida

A jornalista Cássia Almeida, já foi redatora de política do Teresópolis Jornal, escreve na editoria de Economia para o jornal O Globo, desde 1995. Ganhou o premio Vladimir Herzog pela série de reportagens A Terceirização que mata, que investiga o grande número de mortes e acidentes de trabalho relacionados a terceirização. Também publicadas pelo O Globo, as reportagens também receberam o premio ESSO de informação econômica em 2003. Cássia revela em entrevista como é a rotina de um repórter econômico, como foi a elaboração de A Terceirização que mata, e sobre a relação do leitor com a economia.

Quando Começou a escrever sobre economia?
Comecei a escrever sobre economia quando entrei no O GLOBO. Isso foi em maio de 95.

Sempre foi sua intenção trabalhar com jornalismo especializado, ainda mais em uma editoria tão considerada difícil como economia?
Não, eu trabalhava em Teresópolis, lá no Teresópolis Jornal, aí eu vim para o Jornal do Comércio, era redatora da editoria de política. E eu tenho uma grande amiga que trabalha aqui no globo, e que tinha uma vaga e ela me chamou para trabalhar na defesa do consumidor, que é na economia. Foi aí que eu entrei.

Em que área da economia trabalha, como são divididos os ramos da economia?
Aqui a editoria de Economia, assim como todas as editorias de todos os jornais, são divididas em pequenos grupos de cobertura. Você tem defesa do consumidor, então tem dois repórteres que trabalham com isso, em matérias de serviço ligadas à lei.Você tem um outro grupo o de finanças, que cobre bolsa, dólar, juros, e toda essa parte de mercado financeiro.Tem um outro grupo que cobre infraestrutura e negócios, tipo Petrobrás, grandes empresas, o que acontece com elas, quem vendeu para quem, quem fez o quê. Esse grupo acompanha crise na aviação problema da Vasp, Varig, pessoal que cobre a Petrobrás, ontem ela divulgou os resultados do trimestre, então esse pessoal cobre. Cobre as empresas em geral. E a gente bota infraestrutura porque cobre petróleo. São ramos de infraestrutura, petróleo, energia elétrica, telefonia. Onde eu trabalho é a macro-economia que cobre os indicadores em geral, que é a inflação, desemprego, produção industrial, Produto Interno Bruto, comércio exterior, finanças públicas, superávit, balança, tudo isso é coberto por macro-economia onde eu trabalho. Esse grupo cobre também varejo e preço, que tem relação com a inflação. São quatro pessoas, então a gente se divide para fazer as diversas coberturas do dia. Uma cobertura pesada é a do IBGE, que todo mês tem uma série de divulgações coletivas em que eles dizem, se a inflação subiu ou caiu, se o desemprego aumentou ou não, e como está a atividade econômica.

Como é o dia a dia de um repórter que escreve economia?
Os repórteres de Economia normalmente chegam à tarde. Porque o mercado abre a tarde, as coisas acontecem à tarde. O jornal fecha 22h15, o repórter trabalha até mais ou menos 20h30. No caso da macro-economia, a gente as vezes chega mais cedo porque as coletivas do IBGE são as 9h30 da manhã. Por lei, elas têm que ser realizadas nesse horário, pois se você divulga um resultado de desemprego ou inflação, isso afeta os mercados financeiros que podem perder ou ganhar dinheiro com isso. Normalmente quando tem pesquisa no dia anterior a sua chefe diz, ‘olha você vai de manhã fazer essa coletiva’, e você vai assistir essa coletiva, e depois do almoço faz a matéria. A rotina é essa, você chega de manhã e recebe uma pauta do coordenador de pauta. Todos os repórteres têm uma matéria para fazer por dia, ou mais de uma. Em economia é muito comum ter de fazer infográficos. È o pessoal da arte que prepara isso. Por exemplo: ontem a Petrobrás soltou o resultado a repórter, que é a Ramona Ordenez (repórter do O Globo que cobre assuntos de economia relacionados a Petrobrás), vai primeiro passar esses dados todos para a arte, que prepara o infográfico, e depois ela senta e faz a matéria dela. Aqui no jornal quando vamos bater a matéria os chefes já determinaram o espaço e tamanho que a matéria deverá ter. Normalmente fazemos tudo: título, subtítulo e as matérias. Mas nem sempre isso acontece. Na Editoria Rio, por exemplo, como eles têm horário nem sempre eles fazem. Fica cada vez mais comum os repórteres fazerem isso, porque eles estão estudando cada vez mais, tem menos gente para fazer. Nos tempos antigos, as pessoas escreviam vinha o redator reescrevia, depois o outro botava o título, mas isso não existe mais em jornalismo. Os redatores, hoje, têm que pegar essas matérias que vem de Brasília, por exemplo, e fazer o título, porque não tem ninguém para fazer, o repórter está em Brasília, ele não tem acesso ao sistema daqui. Esse o dia a dia, você faz sua matéria, o chefe olha, se tiver alguma dúvida conserta, senão você vai embora e amanhã começa todo de novo.

Já escreveu para outras editorias? Qual a diferença?
Eu trabalhei como redatora, nunca fui repórter de política eu só fazia o copy das matérias, reescrevia fazia título e subtítulo, portanto não sei muito bem se existe diferença como repórter. Mas provavelmente tem porque, economia normalmente tem assuntos mais duros, mais áridos, tem que conhecer mais a fundo para traduzir isso para o leitor, para ele entender o que é inflação, superávit primário, etc. Se você não entender bem isso quando você escrever vira uma sopa de letrinhas e ninguém entende nada. Por causa disso um repórter de economia normalmente é mais especializado. Isso não quer dizer que as outras editorias não tenham sua especialização. Na editoria Rio, por exemplo, que cobre saúde, tem que conhecer, saber como é, se aquilo faz sentido.

Pouca gente gosta de economia por achar muito complicado, o que você pensa sobre isso?
Eu adoro economia. Sempre gostei muito. As pessoas acham chato por não conhecerem direito. Na área que eu faço ela mexe com tudo na vida da pessoa. Mexe com seu bolso quando fala de inflação, se o seu dinheiro vai dar até o fim do mês ou não, se você está gastando mais com comida. Vai dizer se as pessoas estão mais empregadas, ou menos empregadas, se o país está bem ou não, se o governo está trabalhando direito ou não. A economia mexe com a vida das pessoas de uma maneira fundamental. Saber como essas coisas se interligam, interagem, é muito interessante. Você lida com a vida das pessoas o tempo todo, você entrevista pessoas. Não é uma coisa longe da sociedade, como pensam. O mercado financeiro é um pouco assim, mas eu não cubro mercado financeiro. Mesmo assim é interessante você saber. O dólar subiu, e o que eu tenho a ver com isso? Quando o dólar sobe, normalmente os preços sobem também porque tem muita matéria prima que é de fora. Pãozinho, por exemplo. Uma parte da farinha de trigo é importada em dólar. O pãozinho vai subir se o dólar subir. As coisas são muito interligadas. È interessante ver como as coisas se relacionam umas com as outras. É legal, eu adoro!

Como anda o mercado de trabalho, o jornalismo econômico no Brasil, atualmente?
Há uma tendência se fortalecendo no jornalismo econômico, com mais ênfase no O Globo, porém presente em todos os jornais: a cobertura de temas sociais, como pobreza e desigualdade. Há um entendimento que a condução da política econômica acerta em cheio essas questões, mazelas com as quais o país convive há décadas. Já há jornalistas especialistas no tema e estão trazendo para mídia a discussão de como a desigualdade, principalmente de renda, tem emperrado o crescimento do país.

Você esperava ganhar um prêmio por A terceirização que mata?
Esse material da terceirização nós estávamos tentando fazer há mais de um ano. Era um material pesado que falava de acidente de trabalho. É lógico que a gente nunca espera ganhar premio, espera fazer um trabalho legal e aparecer. Nós nos inscrevemos nos prêmios porque aqui temos uma premiação interna, todo mês é escolhida a melhor matéria do mês. Essa matéria já tinha sido escolhida como melhor do mês aqui no jornal, mas foi uma surpresa. O Premio Vladimir Herzog é um prêmio de direitos humanos. Uma matéria de mercado de trabalho ter ganhado o Herzog foi muito legal e surpreendente. Quando veio o ESSO, a gente não imaginava. Então vimos os concorrentes e achamos que o nosso tinha mais chance, acreditávamos, mas só soubemos na hora, parecia o Oscar. Não comi o dia inteiro imaginando, porque o ESSO é o principal prêmio, foi muito legal. Quando faz um trabalho a gente não espera ganhar premio. Ninguém faz matéria esperando ganhar premio. Você quer fazer grandes coberturas porque é mais legal do que ficar todo dia fazendo o que subiu, o que caiu. Quando você tem um grande assunto para trabalhar, fazer uma grande denúncia isso é o importante. Vai vir premio ou não? Se vier é uma maravilha. Seu trabalho você já fez, como diz um repórter daqui.

Como foi a elaboração e produção desse trabalho?
Um ano antes de a gente fazer a matéria, já estávamos fazendo uma matéria sobre terceirização, porque achávamos que a terceirização estava precarizando as relações de trabalho, as empresas estavam ficando piores. Tínhamos feito uma matéria, eu e a Ramona, mas a chefe não gostou, disse que parecia panfleto de sindicato e acabou. Eu tinha essa idéia de fazer isso, mas nunca tínhamos relacionado a terceirização aos acidentes de trabalho. Eu fui fazer uma entrevista com o presidente da Federação Ùnica dos Petroleiros e perguntei a ele sobre a questão da terceirização e ele disse que três pessoas haviam morrido em quinze dias. Então pensamos nisso, vamos fazer a terceirização que mata, e numa reunião com chefia e outra pessoas do grupo levamos isso. Meu chefe levou para a minha outra chefe, que é a Cristina Aldi, a editoria comprou a idéia. Eles puseram, eu e a Ramona, e mais um repórter em Brasília. Ficamos dois meses investigando essas questões relacionadas a acidentes de trabalho e a terceirização. Fizemos no setor de petróleo, de telefonia, no setor siderúrgico e elétrico. Durante dois meses, investigamos e publicamos matérias a respeito. A maior dificuldade é que não tem estatísticas, conseguir o número de mortos, terceirizados, é muito difícil. Cada um que tentávamos era uma dificuldade conseguir. Nós fomos vendo que poucas pessoas estudam isso. Basicamente a matéria surgiu desse papo com o presidente do Sindicato dos petroleiros, que nos apontou a gravidade da história e começamos a pesquisar os números, o jornal comprou a idéia a ponto de me dar uma página inteira todo domingo. Foi uma coisa sofrida porque trabalhamos muito, mas foi bem legal.

Você tem alguma dica ou conselho para os estudantes de jornalismo que desejam trabalhar com economia ou mesmo com jornalismo especializado?
Ler jornal, e muito, ler tudo. Ler jornal é uma boa forma de você conseguir entender melhor o que está acontecendo. Ler mesmo, não é passar os olhos em cima do título, como agente faz para ler outras coisas. Tem que ler para poder entender pelo menos um pouco. Ler é a dica básica. Tem cursos de matemática financeira, de bolsa, que podem dar uma ajuda nessa hora, mas basicamente é ler, com atenção. Ler os articulistas, a Mirian Leitão, sempre. Ler os caras que escrevem artigos, que analisam. As matérias estão cada vez mais didáticas, você consegue entender melhor o que está acontecendo. Ler jornal, isso não é só para economia é para qualquer área que você vá fazer.

Entrevista feita para realização de trabalho acadêmico do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Estácio de Sá


Novembro de 2004


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